Espalhando o sal 17 – De vento em popa
Em 18 de novembro de 1951, meu pai, que cursava a Escola Naval, foi um dos tripulantes do barco de madeira “Vendaval”, vencedor (Fita Azul) da primeira regata oceânica Santos-Rio. O tempo da travessia, 23h50 min, levou 44 anos para ser superado. Quando o recorde foi quebrado, foi feito pelo campeão olímpico Torben Graell.
Nunca ouvi (acho pouco provável que meus irmãos também tenham ouvido) meu pai contar sobre essa “singela” façanha, nem tão pouco do recorde que levou mais de 4 décadas para ser superado. Apesar dos avanços tecnológicos na construção naval, imagino que o vento demorou a encontrar outra tripulação que o compreendesse.
Tudo que sabia dessa época é que durante o tempo da Escola Naval meu pai havia participado de algumas regatas e jogado basquete. Muitas vezes ouvi a expressão “de vento em popa” dita por meu pai, e mesmo sem nunca ter aprendido a velejar, ficou logo claro para mim o sentido da expressão. Quando usada, nunca se referia à competição ou a um recorde, mas se referia a fazer o melhor possível e aproveitar as oportunidades.
Foi essa a expressão que me veio a mente, quando organizava os dados dos progressos alcançados na distribuição de Bíblias no Brasil. Os colportores souberam aproveitar cada oportunidade, cada viagem, cada porta que se abria, primeiro por intermédio do patrocínio de Robert Kalley, depois com a ajuda das agências das Sociedades Bíblicas.
Em 1874, foi criada a primeira Sociedade Biblica do Brasil, que nasceu na Igreja de Kalley no Rio de Janeiro, mas não teve exito na consolidação como empresa auto-sustentada. Mais uma tentativa foi feita em 1902, em Niterói, no estado do Rio de Janeiro, dessa vez chamada de Sociedade Bíblica Juvenil de Nictheroy. Essa organização também não foi avante.
Durante algumas décadas, os representantes americanos e britânicos das Sociedades Bíblicas atuaram no Brasil de forma paralela, mas em espírto de colaboração. Em 1910, foi publicado o Novo Testamento com a primeira tradução do texto bíblico feita no Brasil, e depois, em 1917, a Bíblia completa, que ficou conhecida como Tradução Brasileira. Esse longo trabalho teve o fundamental apoio da Sociedades Bíblicas, de ilustres brasileiros e ficou conhecida como uma versão muito literal dos textos originais, o que para leitores comuns nem sempre é uma vantagem, mas se tornou um valioso instrumento para estudiosos, pesquisadores e professores.
Em 1931, os representantes americanos e britânicos publicaram um relatório em conjunto com o título “As Sociedades Bíblicas lançando os alicerces da Escola Dominical”, com a avaliação do que tinha sido feito em 77 anos de trabalho formalmente organizado. Destaco alguns dos comentários:
- a população tem aumentado de 10 milhões para 42 milhões.
- as estradas de ferro de 40 Km para 35.000 Km
- a Sociedade Bíblica Britânica tem distribuído cerca de 2.800.000 exemplares das escrituras, a Sociedade Bíblica Americana cerca de 2.600.000 e a Sociedade Bíblica Nacional Escocesa cerca de 600.000, totalizando 6 milhões, 1 exemplar para cada 7 habitantes. Apesar de ser um número grandioso, a grande maioria foi de pequenas porções do texto, e consequentemente o número de versões integrais da Bíblia nas mãos de brasileiros é comparativamente pequeno.
O vento continuou soprando … Em 1948, foi criada a Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), e em 1995 foi inaugurada a Gráfica da Bíblia em Barueri, no estado de São Paulo (Sobre esse período da SBB temos um livro escrito pelo Rev. Luiz Antonio Giraldi que participou durante quase 50 anos de forma ativa na área de tradução, administração e direção da SBB. O livro foi publicado em 2008 e se chama A História da Bíblia no Brasil).
Inaugurada em 1/07/1995, a Gráfica da Biblia da SBB já produziu até agora 80 milhões de escrituras (Bíblias e Novos Testamentos), o que resulta uma “singela” média de 16 livros/minuto nas últimas 680 semanas de trabalho. Essa média, se considerarmos somente o ano de 2008, alcança a marca de 35 livros/minuto.
Dos 80 milhões já produzidos, 20 milhões de livros foram exportados para 102 países em mais de 25 idiomas distintos.
De vento em popa, alcançamos essa marca, e, com certeza, o empenho e zelo de todo o corpo de funcionários da SBB foram importantes para nos manter no rumo, vencer os desafios e aproveitar as oportunidades, mas o vento que nos impulsionou foi a Graça e Misericórida de Deus.
Eduardo
Faz tempo que não nos falamos, mas quero sempre parabenizá-lo pela série “Aprendendo a contar histórias”. É um prazer ler e as informações são preciosas!
Abração do primo Samuel.
Caro Eduardo:
Verdadeiramente ao ler a matéria sobre John Mc All e Dr. Butller fiquei emocionado e tocado a escrever-te sobre essas lembranças avivadas agora e que tenho ouvido de meu pai, minha avó Maroca e de nosso querido David. É gratificante ter em nossos ancestrais pessoas que eram zelosas pelo que acreditavam e violentos ao extemo concernente a armas humanas e ao abraçar o Evangelho de Cristo tornam-se mansos no tratar com os semelhantes e corajosos em levar esse Evangelho que salva. Esse comentário feito com maestria por você me emociona muito.
Um afetuoso abraço de seu primo
Chiquinho Gueiros