Espalhando o sal – 11 — Doce presença

2008 Outubro 22

Em agosto, como já foi contado, foi o mês que minha avó Elaine da Gama, aos 90 anos, bisneta de Francisco da Gama, nos deixou. Foi depois de uma longa batalha (afinal era uma mulher da Gama), batalha tal como foi de Helena, sua mãe. Umas das especialidades de Elaine eram seus doces, avós costuma ter esses poderes mágicos, com sua partida minha irmã Lucia comentou que o “mundo ficou menos doce.”

Durante esse tempo que não voltei ao blog, li mais histórias, todas merecem ser contadas, mas sempre que pensava em começar um texto era a mesma coisa, o dia começava antes que o anterior tivesse terminado, e o resto de tempo, que já é curto e precioso, foi desperdiçado, as vezes até em reclamar e se lamentar de não ter tempo.

Continuo de onde parei em julho, com William Kerr se casando em Sorocaba com Aurora de Campos.

Foram vários anos de pastorado, em Sorocaba, na igreja do Brás, em São Paulo, e no auxílio ao Presbitério em outras localidades. Tenho vários resumos dos sermões que William preparou, e embora as anotações sejam composta de referências bíblicas e tópicos do assunto, a forma como William anotava e o padrão uniforme de sua exposição e argumentação mostram sempre o desejo claro e objetivo de pregar o evangelho.

Em 1930 assume a cadeira de hebraico no Seminario de Campinas. Começa a preparar a primeira Gramática da língua hebraica,  em português. Essa obra levaria mais de 15 anos para ser publicada. Quando conseguiu publicar, foi patrocinada pela da Sociedade Biblica Americana. Não havia equipamento gráfico que pudesse imprimir texto em hebraico no Brasil na época.  A própria montagem do livro foi lenta e com a participação da família. Aurora fazia a revisão do português, durante algum tempo o seu filho mais novo, Lysias, colocava as letras do alfabeto hebraico desenhada na mesa, pendurada na parede, ou quando as frases eram muito compridas, no chão de sua casa,  outro filho mais velho, Neander, tirava fotos com a máquina fotográfica que tinha comprado na Italia, durante a segunda guerra mundial. Lysias ainda sabia de cor o alfabeto hebraico mais de 30 anos depois dessas aventuras de criança. Assim foi feita a composição dos textos que seriam levados para Nova York na montagem final do livro. 

Nessa época, 1940-1950, foi membro da comissão criada pela Sociedade Biblica Americana (a Sociedade Bíblica do Brasil só veio a ser criada em 1948) para fazer a revisão do texto conhecido como Tradução Revista e Corrigida de João Ferreira de Almeida. Eessa comissão trabalhou por mais de quinze anos e produziu a versão conhecida como Tradução Revista e Atualizada de JF Almeida. William era um dos especialistas em hebraico. Outro integrante era o Rev. Galdino Moreira, seu companheiro de escola em Lavras. 

Uma nova revisão to texto da Revista e Atualizada foi feita nos anos de 1990, logicamente com uma outra comissão de especialistas, basicamente para atualizar o português,  se chamou de Revista e Atualizada segunda edição.

William se destacou como mestre, foi admirado por muitos alunos que se tornaram mestres, se destacou como pastor, muitas de suas ovelhas tinham especial prazer em conhecer seus descendentes quando ouviam o nome Kerr. Embora não tenha conhecido o avô William, pelas histórias que já ouviu de meus tios e primas, como pai e avô, ele era uma doce presença.

4 Respostas leave one →
  1. 2008 Outubro 22
    Flavio Kerr permalink

    Eduardo, muito bom mesmo que voce voltou a escrever! Somente dois comentários: (1) Depois que o Rev Erasmo Braga largou o cargo da cadeira de hebraico, ele recomendou William Cleary Kerr para a cadeira. Já em 1926 William mudou-se para Campinas, instalou-se no Seminário Presbiteriano para dar aulas de hebraico, mas em minhas notas que estou usando encontro que William foi eleito do SPS pela assembliéa geral em fevereiro de 1928, como “Professor de Hebraico e Literatura do velho Testamento.” Portanto, acredito que foi a partir daí que William assumiu a cadeira de hebraico oficialmente (ou talvez antes até?). (2) Eu fiquei um pouco perdido na sua transição entre o quinto parágrafo (“Em 1930…”) e o sexto (“Nessa época…”), mais especificamente porque voce disse primeiramente que, (“Em 1930…”) William começou a trabalhar na gramática e “…essa obra levaria mais de 15 anos para ser publicada…”, acrescenta que foi a Sociedade Bíblica Americana que patrocinou (a gramática) e segue contando do processo da preparação da gramática, com ajuda dos filhos. No parágrafo seguinte, voce continua a contar que (“Nessa época….”) era membro da tal sociedade americana, que a SBB só foi criada depois, em 1948, “para fazer a revisão do texto conhecido como tradução Revista e Corrigida….” e conta como William, e seu colega, Rev. Galdino, fizeram parte da comissão que trabahou na tradução revista e corrigida no Brasil. Seria interessante ter incluido que neste segundo parágrafo voce não está mais falando da gramática de William, mas, sim, da BÍBLIA, e incluir a data da primeira edição revista e corrigida da Bíblia, pela SBB, no seu texto. O que ficou confuso é que voce disse neste segundo parágrafo …”essa comissão durante mais de quinze anos trabalhou e produziu a versão conhecida como Tradução Revista e Atualizada de JF Almeida…”. Como voce, anteriormente, estava falando da gramática, patrocinada pela sociedade Bíblica americana, publicada nos EUA, que levou 15 anos trabalhando nela e conta que WIllliam fez parte da comissão da sociedade americana que trabalhava na tradução Revista e Corrigida para a SBB, também por 15 anos, dá a impressão para o leigo que voce está dizendo que a tradução Revista e Corrigida é da própria gramática e os 15 anos são os mesmos, tanto trabalhados na gramática como trabalhado para a versão Revista e Corrigida da Bíblia, nas duas coisas (os dois parágrafos se misturaram). O que precisava esclarecer também é que me parece que a primeira tradução Revista e Corrigida pela SBB da BIBLIA foi produzida em 1949—a qual William fez parte da comissão da sociedade americana que ajudou com o hebraico— (e seria outro motivo qual ele publicou a gramática, anteriormente em 1948, para ajudar neste outro trabalho publicado em 1949?).
    Logicamente, então, William participou da comissão para esta primeira edição de 1949, uma vez que nos próximos, não 15 anos, mas 46 anos a SBB trabalhou para lançar a segunda edição, em 1995, quando Willia já havia falecido há quase 40 anos. É isto mesmo ou eu misturei mais ainda a história?

  2. 2008 Outubro 22
    edukerr permalink

    Bem colocado Flavio, se você que é da família se perdeu, imagino os outros, vamos as suas dúvidas e aos meus lapsos.

    1) O certo deveria ser em 1928, William assume a coordenação, da cadeira de Hebraico, embora já fosse porfessor antes e logicamente ensinava outras matérias além do hebraico.

    2)A Gramática foi impressa no fim da década de 1940, não tenho a precisa informação de qual ano, nem também de quando começou a elaboração, lembro de ter ouvido a referência de que começou nos anos 1930, mas não sei quando a idéia foi concebida, talvez tia Lilian saiba. Nessa época, entre 1930 e fim da década dos 1940, ele é convidado a participar da comissão revisora da Bíblia em português na tradução de Almeida, o convite foi feito pela ABS. Os trabalhos tiveram início antes de 1948, essa informação eu tenho com precisão pois tenho a ata que constituiu a comissão, ainda coordenada pela American Bible Society(ABS). Vou procurar nas cavernas os dados precisos depois escrevo. O projeto de revisão levou mais de 15 anos, a primeira versão da Revista e Atualizada foi publicada em 1954. Em 1949 foi publicado um trabalho parcial da revisão, creio que somente parte Antigo Testamento, também tenho esses dados e depois informo.

    A versão Revista e Corrigida foi patrocinada pela Sociedade Bíblica Britânica em 1874, e levou alguns anos, foi feita na Inglaterra por portugueses, foi feita em cima do texto original de Almeida de 1681.

    E por último, a segunda revisão foi feita pela SBB iniciando nos anos 1990, e terminando em 1998, não tive a intenção de vincular essa segunda revisão com William, foi lapso. Espero que tenha desenrolado a história.
    Abraço. edu

  3. 2008 Outubro 23
    Flavio Kerr permalink

    Obrigado! Só que continuou deixando a “Palavra Mágica” de fora deste segundo texto, novamente. E esta palavra é: “A BÍBLIA. Acredito ser necesário mesmo, no desenrolar da história, dizer que a comissão era para fazer a versão Revista e Atualizada da BÍBLIA; assim nenhum leitor desinformado se confunde com a edição da gramática de William.

    Aproveito para passar os dados da gramática que comentou não ter:

    Nota: Pela lei dos EUA, aonde a gramática foi publicada, William é o escritor e autor da gramática (ie. termo “autor” que na definição estadunidense das leis de direito autoral significa: o “proprietário dos direitos autorais”; enquanto, no Brasil, o termo autor não significa, necessáriamente, sempre ser o dono dos direitos autorais).

    A gramática foi publicada nos EUA (vc tem razão, depois de muitos anos de árduo trabalho) por William, em 1948, oficialmente, pelo seu nome abrasileirado; foi confeccionada pela “Jewish Publication Society”, na Filadélfia, Pennsylvania. Eu tenho a cópia da primeira edição com estas informações nas primeiras páginas. A Biblioteca do Congresso (“Library of Congress”) dos Estados Unidos inclui também a mesma informação de ano de publicação (1948) e de autor: “Guilherme Kerr.” Esta informação na “LC” está indexada pelo seguinte número de controle: “LC Control Number: 48023271″ e se encontra nas salas de leituras, ou de estudos, tanto do prédio Jefferson, como do Adams, dos prédios da “LC,” em Washington, DC.
    A ida que William fez a Nova Iorque foi para ir até o “Union Theological Seminary,” nas horas vagas ser ouvinte, enquanto ele aguardava pela confecção da gramática. Ele não foi aperfeiçoar-se no Union, mas conhecia um mestre lá qual foi consultar para tirar algumas dúvidas. Ele passou quase um ano nos EUA (foi em 1947 e voltou com a gramática em 1948).

    O irmão de William, o Rev Emil W. Kerr, menciona: “digamos que a Igreja Presbiteriana do Brasil tornou isto possível, ficando portanto custódia de tão grande obra”

    A segunda edição, Revisada, foi publicada em 1979, e os direitos foram cedidos, mediante contrato, por Dna. Aurora Kerr, viúva de William. Foi revisada e confeccionada em gráficas próprias da Junta de Educação Religiosa e Publicações da Convenção Batista Brasileira, no Rio de Janeiro.
    Abs.

  4. 2008 Outubro 28

    Que bom que voltou a escrever. Cada vez mais fico encantada com o desenrolar dessa história. Parabéns!

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