Em 1907 o pai de William, Warwick S. Kerr, adoeceu. Seu estado de sáude foi piorando. William havia arrumado emprego no Rio e o jovem de 18 anos já tinha traçado seu destino. Decidira ir embora do Brasil, embarcou em um navio da marinha mercante como parte da tripulação, conseguira cartas de recomendação e a promessa de emprego em Liverpool, na Inglaterra. Na verdade seus planos iam mais longe ainda, William queria morar nos EUA. Ainda a bordo do navio ele recebe a noticia da doença de seu pai, resolve adiar seus planos. Vai a Santos e fica abalado com o estado de saúde de Warwick. Decide permanecer no Rio por mais algum tempo, embora aquela oportunidade estivesse perdida, outras surgiriam.
No Rio de Janeiro volta a estudar, e começa a frequentar a Igreja Presbiteriana da Barreira, no centro da cidade, na rua Silva Jardim. Lá se encanta com os sermões de Alvaro Reis. (William dizia aos seus alunos que só a presença física de Álvaro Reis no púlpito já era metade do sermão). Álvaro Reis era exímio orador, sabia usar da Palavra de Deus, debateu assuntos polêmicos na imprensa secular e nos periódicos cristãos da época, dedicava bastante tempo no preparo de seus sermões.
No dia 1 de novembro de 1908, é arrolado como membro comungante da Igreja Presbiteriana da Barreira (hoje Catedral Presbiteriana), no dia seguinte, estando William no bairro de Santa Tereza, assiste compadecido uma procissão com pessoas realizando auto flagelamento, Isso o deixa entristecido. “Será que ninguém pode orientar essas pessoas sobre o evangelho de Cristo?”.
Em, 4 de janeiro de 1909, William é apresentado ao Conselho da Igreja como candidato oficial ao ministério. William tinha 20 anos mas não havia completado o curso secundário, interrompera os estudos na escola pública em Santos, embarcou em navio cargueiro e como tripulante estivera pelas costas da America do Sul, só voltou a estudar na ACM, no Rio de janeiro, em 1908 ainda não havia terminado o curso. Alvaro Reis, sugeriu que William termine seus estudos em Lavras na escola dirigida por Gammon. Começaria uma nova fase na vida de William.
Em Lavras, conhece dois grandes amigos, Rev. Galdino Moreira e Rev. Jorge Goulart. Galdino veio a se casar com a irmã de Jorge Goulart alguns anos depois.
Conheci Rev. Galdino na década de 1960, ela já era bem idoso, Pastor Jubilado da Igreja do Riachuelo. Ouvia seus sermãos sem compreender muito o que falava, mas de dentro da sua toga sacedotal, Rev. Galdino me assustou muitas vezes. Durante seus sermões, ele se empolgava, ou ficava muito irritado com os assuntos que tratava, e socava o púlpito, algumas vezes com explosões de protesto com gesto e em alta voz, e é lógico, muitas vezes fui acordado com babando no vestido da minha mãe. Na saída da igreja eu via aquele velhinho falar com ternura com meus pais, mas acho que sempre temia que ele tivesse mais um momento de indignação, e estendia minha mão para cumprimento meio ressabiado, talvez pensado, “será que ele me viu dormir?”
Antes dessa fase Galdino tomou parte na Comissão de Revisão que foi montada pelas Sociedades Bíblica Britanica e Americana, foi um projeto que e durante vários anos realizou a revisão da versão da Biblia conhecida como Revista e Corrigida de Almeida, estava sendo produzindo a versão Revista e Atualizada, que foi publicada em 1956. Nos primeiros anos de trabalho dessa Comissão, William também participou junto com um grupo de quase 10 especialistas de áreas distintas. Quanto a Jorge Goulart, não me recodo se alguma vez tive oportunidade de conhecer. O casamento de meus pais foi realizado na Igreja do Riachuelo em 1955 por William, Galdino e Rev. Thiago, que na época tinha 3 ou 4 anos de formado.
De volta a Lavras em 1908. Carlota Kemper se radicou em Lavras após a epidemia de Campinas, ensinava matemática e latim. Era respeitada e querida por todos os alunos. Nas férias escolares William e Jorge Goulart saim com os professores nos fins de semana para auxiliar nos trabalhos dominicais. William termina a escola em 1912 e vai para Campinas, começa o seminário junto com seus amigos Galdino e Jorge.
Antes de terminar o ano de 1912, alguns eventos marcam profundamente a vida de William.
Samuel Caldas Kerr, irmão por parte de pai de William, morre ainda menino. Warwick fica extremamente deprimido e fica meses em casa.
Um livro chega as mãos de Warwick, um dos livros preferidos de Robert Kalley. Kalley traduziu para o portugues pela primeira vez na Ilha da Madeira, refez a tradução no Brasil, publicou em portugues e, ainda assim, importou dezenas de exemplares em ingles enquanto esteve no Brasil, livro era “O Peregrino”, de Bunyan. Não sei se podemos descobrir hoje quem teria dado o livro a Warwick, mas o que importa é que ao término do livro, Warwick teria dito: “Agora entendo o amor de Cristo e a mensagem do evangelho”. No primeiro dia de volta ao trabalho, Warwick, muito feliz, diz no escritório que o livro havia mudado a sua vida. Quando pedem para ver o livro, Warwick se abaixa para pegar e tem um enfarte fulminate, era setembro de 1912.
Xi… nesse texto nem cheguei de volta ao Rev. Edward Lane. Peço desculpa aos leitores pelo uso excessivo do recurso literario que venho usando, a digressão. Vou tentar manter um linha mais cronológica, embora o Espalhando Sal 9 e 10 já estejam escritos e precisando apenas de revisão, e voltam a dar saltos de decadas nessa história.
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