Helena foi uma Mulher da Gama.
As lembranças que tenho dela vão até os 6 anos de idade, não é muito. Helena faleceu em janeiro de 65 e já estava além de suas forças físicas, mas convivendo com suas descendentes, guardada as devidas proporções de mudanças sócio culturais do sec. XIX para o sec. XX, formei um esteriótipo da sua personalidade. Algumas poucas pessoas da família podem completar ou corrigir essas impressões.
Helena era filha de Francisco da Gama Junior, seu pai guardava muitas lembranças amargas da Ilha da Madeira, passou um tempo nos EUA na casa de sua tia Emilia. Embora tenha vivido pouco tempo naquele pais, se alistou no exército com seu irmão, em plena guerra civil, isso foi marcante para sua vida. Gostava que o chamassem de Frank Junior. Esse nome foi dado no alistamento pelo exercito do norte dos EUA, e seu irmão de João virou John. Para Frank era uma forma de se vingar do idioma portugues, no qual seu nome era Francisco.
Ficou na igreja de Kalley até o final da vida, casou com Mariquinha, começou uma sociedade com amigo no comércio local, mas com a morte de seu sócio, não se sabe se ele não tinha o controle da contabilidade e/ou não podia comprovar o valor da sociedade, que era guardado num cofre único, ficou sem nada. Outros amigos lhe arrumaram um novo trabalho numa frábbica de chapéu, e a vida foi caminhando, na sombra.
Seu filho mais velho não se casou, depois teve Helena, Luzbela e Silvia.
Silvia não teve descendentes, mas Luzbela teve filhas e netas
E Helena? … bem, Helena era uma menina agitada, conversadeira, que encantava. Os Kalleys convidaram Helena para morar com eles na Escócia, mas na época era a caçula. Sem chance.
Dona Sarah Kalley, ensinou a menina ainda na adolescencia a fazer um bolo que entrou pra familia. Era feito de cerveja preta, açucar mascavo, cravos, bicarbonato de sódio, banha, ovos, e farinha(mas muita gente jura que tem gosto de banana!!). Helena batia o bolo com colheres de pau ( a batedeira estava ainda a 50 anos do seu alcance) , e o braço da menina cançava, mas só depois de quebrar uma ou duas colheres na hora de mexer a massa. Quando fazia o bolo, tinha que ser de três receitas de uma só vez, pois irmãos e vizinhos devoravam em questão de minutos. Na lembraça de Helena o bolo era chamado de Bolo Alemão, embora ela ainda menina tenha batizado de “bolo das colheres de pau”. Bolo Alemão? pode ser, os Kalley morava em Petropolis junto a colonia de imigrantes, mas curiosamente esses mesmo ingredientes eram, e ainda são, usado na culinária daIlha Madeira. Vai saber se a menina se enganou, talvez Sarah tenha recebido a receita dos imigrantes da Madeira.
Helena casou com o jovem Auríneo, membro da Igreja Presbiteriana do Rio. Mas a vida estava prestes a ficar mais difícil. Auríneo faleceu ainda jovem, seu filho mais velho, Airton, era sargento do exército, e por um breve tempo conseguiu sustentar a família, mas, um dia, apareceu morto, nunca esclareceram se foi acidente ou assassinato.
Helena permaneceu firma na igreja do Rio, depois na Igreja Presbiteriana do Riachuelo. Lá no Riachuelo sua neta viria a se casar.
Ainda no tempo que minha bisavó Helena era viva, eu frequentava o Riachuelo. Lembro das músicas da Escola Dominical, lembro do meu pediatra, Dr. Valfredo. Foi lá que conheci o Rev. Galdino Moreira, que por sinal tinha sido amigo de escola de meu avô paterno, William Kerr. Conheci também do Rev. Thiago Rocha, que ainda mora no Rio de Janeiro e que foi amigo de mocidade de meu pai em Campinas, fez o casamento de meus pais e o meu casamento também. Todos eles fazem parte da história de nossas familia, Kerr e Gama. Até mesmo o bolo. Para terminar, é claro, a receita do Bolo Alemão.
1/2 Kg F. trigo
400 g açucar mascavo
6 cabeças cravo moida
200 g margarina
2 C. sopa oleo vegetal
3 ovos inteiro
300 ml cerveja preta (Malzebier)
1 C. café de bircabonato de sódio desmanchado em 1 C. sopa de agua morna
MISTURA TUDO até massa ficar bem lisa
40 minutos de forno medio (180-200) C em forma com furo no meio
Comer tudo.
3 respostas Até agora ↓
Cassia // 19 Março, 2008 às 8:33 pm |
Essa é boa. Receita à Sarah Kalley
Gilberto // 19 Março, 2008 às 9:24 pm |
Esqueceu de dizer que a filha da Helena põe lá no alemão umas ameixas e passas que lhe caem muito bem!
Lilian // 1 Julho, 2008 às 3:46 pm |
Se eu ainda não estou caducando, a Vó Elaine disse q o bolo era chamado de “Bolo das 7 Colheres de Pau”. Imagino q como a massa era pesada e deveria ser BEM batida, houve uma ocasião q chegou a quebrar sete colheres de pau até chegar “ao ponto” da massa. Que tal acrescentar uma “pitada de sal” na receita ??? Mais um nome o Bolo da Pitada de Sal…