Ufa….. !! Laptop novo, do antigo só sobrou o hd, para tirar o atraso vou reproduzir mais uma história, uma bem longa, mas começamos primeiro com o título.
“E vocês, o que têm feito do tempo e das oportunidades que tiveramaté aqui?”
Essa pergunta foi feita em 1941 pelo missionário Mirddin Thomas, na conferência anual da Aliança das Igrejas Evangélicas do Norte, em Barra do Corda/MA. Entre os presentes estava um jovem de 20 anos que viria a se tornar no Rev. Abdoral Fernandes da Silva. Seus pais tinham conhecido o evangelho através do ministério do médico e Rev. Perrin Smith, que sucedeu a João em Barra do Corda.
A história transcrita a seguir foi contada pelo Rev. Jader da Igreja Presbiterina de Recife, baseado no livro do Rev. Abdoral.
“O Aleijado foi muito longe!
Era assim que João Batista Pinheiro era chamado nos idos de 1800: “o aleijado”. Preservando tão-somente o aspecto histórico, o título desta pastoral procura transportar-nos para um dos momentos marcantes dos primórdios do nosso trabalho: de nosso meio o Senhor levantaria um homem simples e faria dele um grande missionário! Doença de bouba? De família com muitos filhos o menino João nasceu mirradinho, quase não se criando. Vivia em um pequeno sítio nas imediações de Barra do Corda-MA, em extrema pobreza, alimentando-se da terra, de biscates, da boa vontade dos mais abastados e também da reza, muita reza com pedidos à nossa senhora para que chovesse, para que alguém providenciasse algo, para que o pão chegasse à mesa.
Dias santos eram respeitados com rigor e os santos dos dias eram homenageados com os nomes nos filhos. O que o padre falava era ordem e o que Igreja dizia era o que se seguia. Mas aquele menino João, que muito pedia para ser curado das feridas que infestavam o seu corpo infantil, via o tempo passar sem ser atendido. Hora melhorava um pouco, hora pipocavam novas feridas. Tudo indicando ser a doença de bouba, infecção comum nos trópicos, forte à época principalmente entre desnutridos que viviam em condições precárias. Começava com erupções na pele. Chás, banhos e outras “medicinas populares” eram tentadas, algumas surtindo pálido efeito, muitas, não.
Quando jovem João sofria com feridas que chegavam a afetar até os ossos, decidiu: – Vou embora!
Ficou sabendo que em Fortaleza havia tratamento. Juntou o pouco que tinha, arrumou uma trouxinha com parcas roupas, pediu a bênção aos pais e partiu. Colocou um pedaço de madeira que ele mesmo seguia esculpindo e foi pela estrada, pedindo ajuda e espaço nos transportes de tração animal ou trem, comendo quando desse e o que dessem.
Assim o maranhense chegou à capital alencarina. Amputação. Não teve jeito. O tratamento além de caro era raro. A Medicina brasileira não estava apta para lidar com casos como aquele. Amputaram-lhe a perna. Quase morreu, mas não morreu. E ficou em Fortaleza, mendigando. Seu pedaço de madeira transformara-se em uma imagem de nossa senhora esculpida com canivete por suas ágeis mãos. Era seu costume pedir esmolas apresentando a imagem às pessoas, rogando bênçãos aos ofertantes. Aquela imagem o acompanhava e produzia conforto.
Seguia rezando e confiando no objeto da sua devoção. A essa altura as feridas já estavam presentes na perna que ficara. A agonia o afligia. Tudo coçava e irritava o tecido cutâneo. “No Recife ouvi dizer que tem médico bom para esse negócio aí”. Foi o que ouviu de um transeunte.
Agarrou-se aquela informação sem sequer confirmar se havia veracidade ou não. Iria para Recife à procura de tratamento. E da mesma forma, pedindo e esperando, apoiando-se em uma muleta, tomou o rumo de Pernambuco. Que música linda! De onde vem?!
1887. João estava dormindo na porta de um estabelecimento comercial. Era domingo cedo. Dormia sempre onde encontrava espaço, nas portas mais ao fundo das paredes para proteger-se da chuva.
Acordara com lindos hinos sendo entoados. Ficou impressionado. Enlevado, guiando-se pelo som, foi se aproximando.
Achou aquilo estranho. Não era igreja como ele conhecia uma igreja, mas parecia algum tipo de missa acontecendo em um salão pequeno. Mas não tinha padre, nem véu, nem velas… Ficou à porta, meio acanhado e muito desconfiado. Achara a música linda. E como não tinha outra coisa para fazer ficou ouvindo. No outro domingo quis voltar para ouvir mais cânticos. E ficou novamente parado na entrada.
E ouviu a mensagem. Que mensagem linda! Que palavra segura! Que Cristo maravilhoso! João Batista não agüentou mais. Queria professar imediatamente aquela fé, bíblica e cristalina que fazia o seu coração arder.
Assim, veio a Cristo, passando a receber a atenção e o cuidado dos membros da igreja. Não muito tempo depois, providenciaram para ele um quartinho nos fundos e generosas irmãs lhe davam alimento. Se lia “só de carreirinha e muito mal”, o tempo que tinha passou a ser investido aprendendo a ler melhor. E lia a Palavra de Deus, e lia, e lia… Os meus parentes estão em trevas. João ficou triste, muito triste.
Pensava nos seus lá no Maranhão. Eles nunca tinham ouvido aquela mensagem do evangelho da Graça de Deus. E por isso orava e rogava ao Pai a oportunidade de revê-los. Queria compartilhar a Palavra. A sua saúde continuava debilitada. O tratamento que viera buscar não encontrara. Sua alma estava restaurada, mas a sua perna já estava bem comprometida. Queria retornar ao Maranhão e pregar para os seus parentes antes de morrer.
A liderança da igreja levantou um montante e o enviou a São Luís com uma carta de recomendação. Àquela altura a Missão Presbiteriana do Norte do Brasil destacara para aquela capital os Reverendos Butler e Thompson, que acolheram João. Foi Dr. Butler, aliás, quem cuidou de suas feridas e providenciou a amputação da perna, por não haver mais jeito. João Batista Pinheiro tivera amputações que chegavam perto das nádegas.
Distribuindo folhetos incansavelmente. Fizeram para ele um carrinho com rodas de madeira (tipo carrinho de rolemã) para que pudesse se locomover. Como a pele na região amputada ficara sensível, também lhe forneceram uma proteção à base de couro e assim se arrastava pela cidade, sempre pregando o evangelho e sempre distribuindo folhetos.
De São Luís seguiu para Barra do Corda.
Matem esse aleijado! Assim que começou a pregar começaram as reações fortes! Aquilo ia contra os ensinamentos da Igreja Católica! Aquilo era heresia! Aquilo era mensagem de maldito protestante!
Com limitações físicas, foi apedrejado, linchado, e certa vez um furioso anti-evangélico lançou seu cavalo contra ele, atropelando-o.
Pedira Bíblias que o Rev. Thompson enviara pelo Correio. Seis exemplares, todos tomados à força e queimados em praça pública. Pediu mais Bíblias e dessa vez a Igreja de São Luís enviou o dobro: doze. E foi graças à perseverança e pregação deste incansável servo de Deus que as primeiras famílias em Barra do Corda ouviram o evangelho e nele creram.
Em 1901 professaram a fé as famílias Barros, Caetano, Pinheiro, Dodô e outras mais, através do testemunho daquele homem humilde e fiel. Dos ensinamentos recebidos no Recife e em São Luís, João a todos recomendava o amor e a devida observação às Sagradas Escrituras, ensinando pacientemente os novos convertidos, ajudando-os a seguir na trilha da fé, com perseverança e dependência da Graça!
Em 1905 chegara à cidade de Grajaú, distante cerca de 200 quilômetros de Barra do Corda, um casal canadense. À semelhança do conhecido médico escocês Dr. Robert Kalley, Perrin e Ann Smith vieram ao país como missionários independentes, mas com visão mais congregacionalista. Perrin era um pregador incansável, viajando mais de 700 quilômetro à cavalo pregava sempre em cidades como Serra das Cintra, Imperatriz, Serra Negra, incluindo também a região do Alto Mearim.
Em 1911 realizou mais de 30 batismos em Barra do Corda, dos “discípulos do João”. Ali os crentes pediram-lhe encarecidamente que cuidasse do rebanho, pois João Batista Pinheiro, agora velho, surdo e quase cego, recolhera-se muito enfermo à casa de uma filha.
A Igreja Presbiteriana não tinha quem enviar para lá e um sobrinho de João era quem ‘pastoreava’, sendo este muito simples e quase analfabeto. O Pastor Perrin atendeu o pedido, comprou uma propriedade e dali passou a pregar em outras localidades como Porto Franco, Mirador, Colinas, São Domingos, Presidente Dutra, etc. Por suas convicções, aquela que seria uma igreja Presbiteriana foi mudada para uma linha mais congregacional, surgindo uma nova denominação no solo brasileiro: a Igreja Cristã Evangélica do Norte do Brasil (os pais da minha esposa atuaram por mais de 40 anos com este grupo). E a Igreja Cristã Evangélica está hoje presente em onze estados brasileiros, massissamente na região Norte do país.
Ide! De Barra do Corda saíram muitos obreiros simples que foram entrando nas matas do Pará, Amazonas, Amapá, Roraima, Rondônia e hoje pregações bíblicas e igrejas nos mais longínquos rios amazônicos podem ser encontradas. Homens e mulheres de Deus seguiram a boa tradição de compartilhar a Palavra onde houvesse oportunidade e gente para ouvir, tornando a gloriosa mensagem do evangelho bem conhecida nas densas matas do Norte. Era a mesma mensagem levada anos atrás pelo aleijado onde não havia Mensagem. E desde então este evangelho de poder transformador andou e tem andado como nunca! “…e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus”. ( 1 Co 1.28,29).
Escrito pelo Rev. Jáder Borges Filho
Relato possível graças ao livro “Nossas Raízes” do Rev. Abdoral Fernandes, que conta a história das Igrejas Cristãs Evangélicas do Norte do Brasil“